Em 1995 surgiu uma revista muito interessante chamada Atenção! (ISSN 1413-120X, Editora Página Aberta, São Paulo, Diretor de Redação ). Ela tinha uma diagramação bastante moderna para os padrões editoriais da época e trazia sempre reportagens, resenhas e crônicas sobre variados assuntos, muitas vezes conduzidos sob um enfoque crítico. Eduardo Galeano foi um dos colunistas da revista. A revista saiu de circulação pouco tempo depois do lançamento, mais ainda é possível encontrá-la em sebos ou bibliotecas.
Referência:
FURTADO, T. Química do Suicídio. Atenção!, ano 2, nº6, 1996, p.32-34. Disponível em <http://bit.ly/QuimicaSuicidio>
Mais sobre suicídios em Venâncio Aires (RS)

FALK, J.; CARVALHO, L.; SILVA, L.; PINHEIRO, S. Suicídio e Doença Mental em Venâncio Aires - RS: Conseqüência do Uso de Agrotóxicos Organofosforados?. Relatório De Pesquisa. Porto Alegre: 1996. 31p . Disponível em: <http://galileu.globo.com/edic/133/agro2.doc>. Acesso em 31 de maio de 2016.
MATEOS, Simone Biehler. Quem explora a mão de obra infantil. Atenção!, Ano 1, n. 2, p. 8-16., Dez./Jan. 1996. Disponível em: <http://goo.gl/kMyUlU>. Acesso em 31 de maio de 2016. (Reportagem vencedora do prêmio Vladimir Herzog de anistia e direitos humanos em 1996).

POMAR, Wladimir. Expresso Oriente. Revista Atenção – Revista Atenção!, A indústria brasileira está sumindo, Ano 2, n. 7, p. 46-50, 1996. Disponível em: <https://goo.gl/hjShmY>. Acesso em 31 de maio de 2016.
Na edição n. 6, Ano 2, de 1996 - que trazia na capa João Pedro Stédile, um dos líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) - foi publicada a reportagem de Thais Furtado (p.32-34) chamada Química do Suicídio que investigava as relações entre o cultivo de fumo e o aumento dos casos de suicídio entre a população de Venâncio Aires (Rio Grande do Sul). A reportagem conta com entrevistas com o engenheiro agrônomo Sebastião Pinheiro (http://lattes.cnpq.br/6779441884647236), o médico sanitarista João Werner Falk (http://lattes.cnpq.br/4625474362936658) e o bioquímico Lenine Carvalho.
Química do Suicídio
Por Thaís Furtado
[Esta reportagem foi publicada
originalmente na revista Atenção! (Ano 2, nº6, 1996, p.32-34). Scanner e
digitação Ricardo Dagnino.]
- - - - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - -
A autora foi colabora, em Porto
Alegre, com as revistas Veja e Capricho. Ex-chefe da sucursal gaúcha de Veja e
subeditora das edições regionais (Vejinhas) da revista, e professora da
Faculdade de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
- - - - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - -
A cidade gaúcha de Venâncio Aires
tem um dos maiores índices de suicídios do mundo. O vilão pode ser um
agrotóxico.
Venâncio Aires, uma pacata cidade
de 55 mil habitantes, a 110 quilômetros de Porto Alegre, nunca foi dos pontos
mais conhecidos do mapa gaúcho. Até este ano, quando se revelou uma tragédia
escondida por trás da vida simples dos agricultores da região. Venâncio Aires
detém um dos maiores índices mundiais de suicídios. No ano passado, foram 21
mortes, 37,22 para cada 100 mil habitantes, onze vezes a média brasileira e
maior até que o índice de países recordistas em suicídios, no Primeiro Mundo.
Na Dinamarca, por exemplo, a média é de 28,6 mortes/ano por 100 mil habitantes.
Quem revelou a tragédia gaúcha foi um grupo de
pesquisadores, em trabalho apresentado à Comissão de Justiça e Direitos Humanos
da Assembléia Legislativa do Rio Grande. A pesquisa relacionava as mortes com o
uso indevido de agrotóxicos nas plantações de fumo, principal cultivo da
região. A divulgação provocou uma guerra silenciosa na cidade e amedrontou os
agricultores. Eles evitam falar com repórteres, o prefeito acusa os
pesquisadores de denegrir a imagem do município e as indústrias que compram o
fumo - Souza Cruz, Phillip Morris, Universal Leaf e Leegtmayer, entre outras -
rebatem a denúncia, dizendo que as conclusões do trabalho são precipitadas. O
que não se pode negar são os números: mais gente se suicida em Venâncio Aires
que no resto do mundo. “Há muitas evidências de que o uso de agrotóxicos está
relacionado com as mortes, embora possa não ser o único motivo”, diz a advogada
Letícia Rodrigues da Silva, coordenadora da pesquisa. Nascida em Venâncio
Aires, Letícia começou a observar que muitos vizinhos de seus pais tinham
problemas mentais e vários acabavam se matando, normalmente por enforcamento.
Agricultores, as vítimas
Ativista do Movimento de Justiça
e Direitos Humanos na cidade, ela resolveu ir mais a fundo na investigação.
Passou por todas as delegacias de polícia da região pesquisando o número de
suicídios registrados. Constatou que o índice era altíssimo. Alguns dados
chamavam atenção. Mais da metade dos suicidas eram agricultores ou
trabalhadores temporários nas empresas de fumo - em {p.33} alguns anos,
a cifra chegava a 80%. E a maioria das mortes ocorria entre outubro e janeiro,
época da colheita, quando mais se aplicam agrotóxicos.
A advogada procurou então
especialistas para formar um grupo de estudos capaz de descobrir o motivo de
tantos suicídios. O engenheiro agrônomo Sebastião Pinheiro, o médico
sanitarista João Werner Falk (que hoje elabora dissertação de mestrado sobre as
mortes) e o bioquímico Lenine Carvalho, que defendeu tese de mestrado sobre as
seqüelas neurológicas relacionadas ao uso de agrotóxicos, passaram a se reunir
semanalmente com Letícia.
A economia da região é baseada no
cultivo do fumo. Só no município, são nove mil hectares de plantações. As
indústrias oferecem ao agricultor as sementes, a tecnologia, os adubos e o
agrotóxico. Na hora da colheita, o fumicultor tem que vender o produto para
aquela indústria, que desconta os valores adiantados. “O agricultor está sempre
devendo e isso é escravidão”, diz Sebastião Pinheiro. É também a indústria que
classifica o fumo entregue pelo camponês; ele pode estar nas classes 1, 2 ou 3,
de acordo com a qualidade. “O fumicultor cuida ao máximo da plantação, para que
o fumo seja melhor classificado e ele ganhe mais”, explica Pinheiro.
A próspera indústria do fumo
Após a divulgação da pesquisa
relacionando os suicídios ao uso de agrotóxicos, os camponeses que deram
entrevistas ficaram com medo de terem seus produtos rebaixados de
classificação, como represália. “Não temos informações de que isso tenha
acontecido”, diz o diretor da Associação dos Fumicultores do Brasil (Abrafumo),
Jorge Kämpf. “Esta pesquisa não tem comprovação científica e prejudica a imagem
da região e dos trabalhadores.” Os fumicultores procurados por Atenção! em Venâncio Aires, no entanto,
não quiseram identificar-se nem tirar fotos. “Eles estão desqualificando o fumo
dos que deram entrevista, sim. Por isso ninguém quer falar”, denuncia o
agricultor A.
A Abrafumo foi criada há quarenta
anos, em Santa Cruz do Sul, a capital gaúcha do fumo, para apoiar os
agricultores em caso de granizo ou de pragas na plantação. O presidente da
entidade, Hainsi Gralow, esteve presente - em maio - no encontro em que a
diretoria da Souza Cruz anunciou ao governador Antônio Britto a ampliação da
usina que vem construindo em Santa Cruz do Sul (vizinha a Venâncio Aires).
Deverá ser a maior usina de processamento de fumo do mundo, com investimentos
iniciais de 50 milhões de dólares, que serão ampliados para 77 milhões de
dólares. O agrônomo Sebastião Pinheiro diz que o problema de apresentar
denúncias ligadas ao cultivo de fumo na região é que 85% dos impostos
arrecadados pela Prefeitura de Venâncio Aires, por exemplo, vêm do setor. O
Brasil, aliás, é o maior exportador mundial de fumo. “Como é que o prefeito de
Venâncio Aires pode ser independente numa conjuntura como essa?”, questiona
Pinheiro.
Quando os pesquisadores,
acompanhados por deputados federais, apresentaram seu trabalho a uma platéia de
mil pessoas, nenhuma autoridade municipal compareceu. Dias depois, o prefeito
de Venâncio Aires, Almedo Dettenborn (PPB), foi a Brasília, com o objetivo de
pedir ao ministro da Saúde, Adib Jatene, verbas para uma nova pesquisa sobre o
assunto. “O prefeito disse que nossa pesquisa não era séria”, conta o
bioquímico Lenine Carvalho. Dettenborn voltou sem dinheiro e os pesquisadores
receberam a promessa de que será feito um levantamento epidemiológico na
região. “Esta é a providência correta”, elogia Lenine. O médico João Falk
chegou a entregar pessoalmente ao ministro Jatene, em Porto Alegre, uma cópia
do trabalho. Para o secretário da Saúde de Venâncio Aires, Edson Dutra, a
divulgação da pesquisa foi “sensacionalista”. Enquanto a polêmica prossegue, o
grupo continua se reunindo. E já soube de três novos suicídios, desde
fevereiro.
1995: Recorde de mortes na cidade
O médico Falk reconhece que nunca
há um motivo isolado para o suicídio. Fatores culturais ou econômicos podem
estar contribuindo para o número elevado de mortes na cidade gaúcha. Mas é
impossível fechar os olhos, por exemplo, para o fato de que, em 1995, ano
recorde em número de suicídios na história de Venâncio Aires, os agricultores
aplicaram 100 quilos de agrotóxicos por hectare. Isso por conta de uma seca que
aumentou a incidência de pragas. Nos anos anteriores, a média era de 50 quilos
de agrotóxicos por hectare, que os especialistas já consideram demasiada. Para
o presidente da Associação Brasileira das Indústrias do Fumo (Abifumo), Nestor
Jost, “essa história não passa de uma campanha leviana antitabagista. Mais de
500 municípios utilizam os defensivos agrícolas. Existem locais em que a
intensidade é muito maior do que em Venâncio Aires e lá nunca aconteceu {p.34}
nada”, garante. Jost também desmente que o aumento de suicídios, no ano
passado, esteja ligado à maior quantidade da utilização do agrotóxico. “A
indústria mantém a mesma proporção de defensivos todos os anos, os cálculos são
definidos previamente. Não há grandes variações”, diz. De acordo com o
presidente da Abifumo, as mortes estão relacionadas a fatores sociais. “Os
hortifrutigranjeiros têm uma quantidade infinita de agrotóxicos e eu desconheço
alguém que tenha se suicidado porque comeu muito tomate”, conclui.
O Rio Grande do Sul é o
recordista em suicídios no Brasil, com 8,09 mortes por 100 mil habitantes. Em
São Paulo, o índice é de 3,99. Na região gaúcha do fumo, que engloba onze
cidades, a média é de 14,22 mortes. Segundo o bioquímico Lenine Carvalho, o
vilão é o organofosforado, um agrotóxico muito empregado nas plantações de fumo
do Brasil. Extremamente tóxicas, algumas variedades de organofosforados são
proibidas em vários países, “Eles podem causar intoxicação aguda ou crônica se
inalados ou absorvidos através da pele”, explica. A intoxicação aguda causa
alterações neurológicas porque o produto atinge uma enzima que controla o fluxo
nervoso. A pessoa sente dor de cabeça, tonteira, vertigem, tem tremores
involuntários, confusão mental e pode entrar em coma e morrer, caso não seja
medicada imediatamente.
“Mesmo quem recebe atendimento
pode ficar com seqüelas neurológicas”, diz o bioquímico. Essas mesmas seqüelas podem
aparecer nos agricultores com intoxicação crônica, que têm contato por um longo
tempo com o organofosforado, ainda que em quantidades reduzidas. Passam a
sentir ansiedade, tensão, alterações no sono, dificuldade de concentração,
deficiências de memória, apatia e depressão. “Todos esses elementos podem levar
ao suicídio”, conclui Carvalho. Entre os mortos de Venâncio Aires, mais de 60%
já apresentavam alterações psíquicas.
Além da polêmica e do medo entre
os agricultores, que não querem perder uma renda média de 6 mil reais anuais
por família, a pesquisa sobre os suicídios de Venâncio Aires contribuiu para a
criação de uma CPI no Congresso. A CPI do Tabaco vai analisar todas as questões
que envolvem a indústria do fumo, como o próprio vício, as condições de
trabalho dos fumicultores e a ética das empresas. Um dos assuntos mais
polêmicos da CPI certamente será o cultivo de uma variedade de fumo chamada Y1.
“É uma planta criada geneticamente nos Estados Unidos que conta com o dobro de
nicotina e por isso tem mais poder de viciar as pessoas”, explica o agrônomo
Sebastião Pinheiro. A planta foi proibida nos EUA por motivos éticos, já que o
consumidor não sabe que está fumando um cigarro que pode viciar ainda mais.
Rio Grande do Sul, campo de testes
Foi descoberto nos EUA, porém, que
saíram das fábricas cigarros fabricados com essa variedade de fumo. Como? A
planta vinha sendo cultivada no Brasil, inclusive em Venâncio Aires. “Felizmente
ela é menos resistente às pragas” diz Carvalho. “Mas por isso mesmo, precisa de
mais agrotóxicos.” A própria Souza Cruz anunciou que estava cultivando o Y1 no
Brasil.
O grupo gaúcho de pesquisadores já
foi convidado a participar da CPI, apresentando o trabalho sobre os suicídios
de Venâncio Aires. “O uso de agrotóxicos é um problema sério de saúde pública e
enquanto não chegamos a uma conclusão definitiva o governo poderia controlar
melhor a venda dos produtos e informar devidamente os agricultores”, sugere o
médico João Falk.
Média de suicídios por Estado*
|
|
Rio Grande do Sul
|
8,09
|
São Paulo
|
3,99
|
Minas Gerais
|
2,95
|
Rio de Janeiro
|
2,06
|
Brasil
|
3,2
|
* Casos/ano por 100 mil habitantes
|
Box na pág. 33
Pesquisas
Toxicologistas de vários países
já realizaram estudos relacionando o uso de agrotóxicos a problemas psíquicos.
Hernán Sandoval, do Chile, e German Corey, do México, comprovaram que os
organofosforados, utilizados no cultivo do fumo, provocaram degeneração do
sistema nervoso central, em agricultores de seus países. Uma pesquisa orientada
pela Organização Mundial da Saúde, a partir de 1987, revelou casos de depressão
e perda de memória na Hungria e Tchecoslováquia. O norte-americano Robert
Rodnitzky, da Universidade de Iowa, fez uma pesquisa com trabalhadores expostos
a organofosforados, e revelou que a intoxicação resulta em disfunções do
sistema nervoso central. Na década de 60, o médico argentino Emílio Astolfi
relacionou o uso de organofosforados na região fumicultora do Chaco, ao aumento
de suicídios entre agricultores. Não há, porém, qualquer evidência sobre
efeitos dos agrotóxicos sobre os fumantes. Mesmo assim, os pesquisadores
sugerem novas investigações sobre o tema.
Fim da transcrição da reportagem
Referência:
FURTADO, T. Química do Suicídio. Atenção!, ano 2, nº6, 1996, p.32-34. Disponível em <http://bit.ly/QuimicaSuicidio>
Mais sobre suicídios em Venâncio Aires (RS)
FALK, J.; CARVALHO, L.; SILVA, L.; PINHEIRO, S. Suicídio e Doença Mental em Venâncio Aires - RS: Conseqüência do Uso de Agrotóxicos Organofosforados?. Relatório De Pesquisa. Porto Alegre: 1996. 31p . Disponível em: <http://galileu.globo.com/edic/133/agro2.doc>. Acesso em 31 de maio de 2016.
Mais reportagens da revista Atenção!
POMAR, Wladimir. Expresso Oriente. Revista Atenção – Revista Atenção!, A indústria brasileira está sumindo, Ano 2, n. 7, p. 46-50, 1996. Disponível em: <https://goo.gl/hjShmY>. Acesso em 31 de maio de 2016.
Bom dia Ricardo.
ResponderExcluirPeço sua ajuda: gentileza informar se há como eu localizar a edição da revista Atenção que trás a reportagem sobre os CIEPS (Escola Pública do Rio de Janeiro).
Grato,
Jair
Colombo - PR
Oi Jair!!
ExcluirSeria interessante ter o acervo dessa grande revista todo disponível na internet, não é?
Com certeza, as novas gerações aprenderiam muito com essa forma crítica de fazer reportagem.
Eu vou pesquisar aqui no meu acervo e depois entro em contato.
Por favor me escreva para ricardosdag@gmail.com.
Obrigado
Olá! Possuo os nºs. 1, 6, 8 e 9 dessa revista.
Excluireu tenho a coleção completa, fui editora de arte lá
ResponderExcluirOlá Claudia! Você sabe onde e como podemos ter acesso à revista?!
ExcluirBoa tarde ,estou procurando uma edição de 1995.Nao recordo o número, mas lembro da matéria capa .
Excluir