Extraído da Revista Super Interessante (Editora Abril, edição 271, Novembro de 2009)
Os gráficos que podem mudar o mundo
por FERNANDA VIÉGAS
(pesquisadora e designer computacional da IBM, com Ph.D. pelo Media Lab do MIT. Ela é uma das criadoras doMany-Eyes e participa do ciclo de palestras do TEDxSP)
A Guerra da Crimeia acontecia no mar Negro, entre 1853 e 1856: um conflito sangrento entre a Rússia e uma coligação entre Inglaterra, França e Império Otomano. Uma guerra normal, com os feridos e mortos de sempre. Mas, às vezes, temos a capacidade de aprender com as tragédias. E esse foi o caso das fatalidades na guerra: elas causaram uma revolução nos hospitais do mundo que, ainda hoje, reduz bastante o risco de morte por infecção hospitalar.
O cerne dessa revolução foi uma imagem. Uma imagem que não mostra campos de batalha, soldados feridos ou crianças mortas. É uma imagem de números - um gráfico. Florence Nightingale, uma enfermeira inglesa, resolveu usar estatísticas sobre a morte de soldados para pintar um retrato da situação. O diagrama revelou que a maioria dos soldados morria nos leitos de hospitais, e não nos campos de batalha - eram 10 vezes mais mortes causadas por tifo, cólera e disenteria do que por ferimentos de batalha. A falta de ar fresco, luz e higiene nos hospitais provocava milhares de mortes desnecessárias. Era a primeira vez que se via fatalidades militares com números - e o diagrama era tão dramático que o governo inglês resolveu melhorar as condições sanitárias dos hospitais militares. E, assim, reduziu a mortalidade de soldados de 42% para 2,2%. Tudo graças a uma imagem.
Visualização é isso: o poder de contar histórias e tomar decisões baseando-se em dados. Visualizações fazem com que assuntos complexos se tornem concretos e acessíveis. Em 2006, por exemplo, Al Gore transformou o debate mundial sobre aquecimento global ao subir em um guindaste para mostrar uma curva que representava o aumento de CO2 e da temperatura na Terra. Imagine se Al Gore, em vezde gráficos, tivesse mostrado apenas uma tabela de centenas de números? Quantas pessoas teriam entendido a gravidade da situação?
É por isso que a visualização é o fotojornalismo do século 21. Não só retrata os fatos da nossa época, mas motiva o debate. Visualizar dados governamentais, por exemplo, cria um espelho do país, mostrando suas conquistas e mazelas. E fazer isso não precisa ser complicado. Já há sites que disponibilizam, de graça, ferramentas sofisticadas de visualização. Quando eu criei o Many Eyes, imaginei um site onde qualquer um pudesse visualizar os dados que desejasse. Há pessoas que o usam para enxergar o conteúdo do freezer. Outras, os convidados de seu casamento. Crianças descobrem os tipos de meias que têm em casa. A habilidade de transformar números em imagens e entender o que elas significam será cada vez mais importante. Pois quem brinca de visualizar meias de familiares hoje visualiza o orçamento governamental amanhã.
por FERNANDA VIÉGAS
(pesquisadora e designer computacional da IBM, com Ph.D. pelo Media Lab do MIT. Ela é uma das criadoras doMany-Eyes e participa do ciclo de palestras do TEDxSP)
A Guerra da Crimeia acontecia no mar Negro, entre 1853 e 1856: um conflito sangrento entre a Rússia e uma coligação entre Inglaterra, França e Império Otomano. Uma guerra normal, com os feridos e mortos de sempre. Mas, às vezes, temos a capacidade de aprender com as tragédias. E esse foi o caso das fatalidades na guerra: elas causaram uma revolução nos hospitais do mundo que, ainda hoje, reduz bastante o risco de morte por infecção hospitalar.
O cerne dessa revolução foi uma imagem. Uma imagem que não mostra campos de batalha, soldados feridos ou crianças mortas. É uma imagem de números - um gráfico. Florence Nightingale, uma enfermeira inglesa, resolveu usar estatísticas sobre a morte de soldados para pintar um retrato da situação. O diagrama revelou que a maioria dos soldados morria nos leitos de hospitais, e não nos campos de batalha - eram 10 vezes mais mortes causadas por tifo, cólera e disenteria do que por ferimentos de batalha. A falta de ar fresco, luz e higiene nos hospitais provocava milhares de mortes desnecessárias. Era a primeira vez que se via fatalidades militares com números - e o diagrama era tão dramático que o governo inglês resolveu melhorar as condições sanitárias dos hospitais militares. E, assim, reduziu a mortalidade de soldados de 42% para 2,2%. Tudo graças a uma imagem.
Visualização é isso: o poder de contar histórias e tomar decisões baseando-se em dados. Visualizações fazem com que assuntos complexos se tornem concretos e acessíveis. Em 2006, por exemplo, Al Gore transformou o debate mundial sobre aquecimento global ao subir em um guindaste para mostrar uma curva que representava o aumento de CO2 e da temperatura na Terra. Imagine se Al Gore, em vezde gráficos, tivesse mostrado apenas uma tabela de centenas de números? Quantas pessoas teriam entendido a gravidade da situação?
É por isso que a visualização é o fotojornalismo do século 21. Não só retrata os fatos da nossa época, mas motiva o debate. Visualizar dados governamentais, por exemplo, cria um espelho do país, mostrando suas conquistas e mazelas. E fazer isso não precisa ser complicado. Já há sites que disponibilizam, de graça, ferramentas sofisticadas de visualização. Quando eu criei o Many Eyes, imaginei um site onde qualquer um pudesse visualizar os dados que desejasse. Há pessoas que o usam para enxergar o conteúdo do freezer. Outras, os convidados de seu casamento. Crianças descobrem os tipos de meias que têm em casa. A habilidade de transformar números em imagens e entender o que elas significam será cada vez mais importante. Pois quem brinca de visualizar meias de familiares hoje visualiza o orçamento governamental amanhã.
Mapa da cólera, John Snow, 1854
Durante um surto de cólera em Londres em 1854, o médico John Snow mapeou a localização dos casos da doença (veja aqui ampliado). Acreditava-se que a cólera era causada pelo ar poluído, mas o mapa mostrou que a maioria dos doentes estavam ao redor de uma bomba de água na Rua Broad. A correlação fez com que as autoridades considerassem que a água do poço estivesse contaminada. Assim que a bomba da Rua Broad foi retirada, a epidemia acabou.

Retrato de uma guerra, Florence Nightingale, 1858
Ao ver soldados morrendo na Guerra da Criméia, a enfermeira Florence Nightingale pintou um retrato em 3 categorias: azul para mortes infecciosas evitáveis; em vermelho, ferimentos de batalhas; em preto, demais causas. Vendo que os soldados morriam mais nos leitos que em batalhas, o governo inglês resolveu melhorar as condições sanitárias dos hospitais. A mortalidade de soldados foi então reduzida de 42% para 2,2%. Clique aqui para ver o original.

Tabela Periódica, Dmitri Mendeleev, 1869
O diagrama dos elementos químicos conhecidos, criado pelo químico russo Dmitri Mendeleev (veja aqui), mostra cada um de acordo com o número atômico, em ordem crescente. A Tabela revolucionou o estudo da química com a classificação, sistematização e comparação, e permitindo prever as tendências dos átomos em cada elemento. Foi como se, de repente, encontrássemos a planta arquitetônica do mundo químico. Confira também a versão moderna dele.

Google maps, Google, 2005
"Em pouco tempo o Google Maps revolucionou a maneira como nos deslocamos de um ponto A para um ponto B. Com um mapa interativo que visualiza a melhor rota entre dois endereços e fornece direções passo a passo, é um exemplo de visualização usada todos os dias por milhões de pessoas no mundo. Clique aqui e não saia de casa sem ele. "

Uma Verdade Inconveniente, Al Gore 2006
Quando Al Gore subiu em um guindaste para mostrar a curva crescente de CO2 e temperatura na Terra, criou-se um ícone no debate sobre o aquecimento global. A imagem pegou fogo na internet, passando de blog em blog e influenciando as agendas políticas internacionais da noite para o dia. Para assistir o vídeo, clique aqui.

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