13 novembro 2006

Artigos Transgênicos X Artigos Orgânicos

José Augusto Pádua, Professor do Departamento de História da UFRJ e autor do livro “Um Sopro de Destruição” (resenha de Allan Monteiro sobre o livro) foi convidado pela Folha de São Paulo a deixar o seu recado sobre o dilema entre Orgânicos Versus Transgênicos (caderno Mais!, 29/out/06).

A idéia da Folha naquele domingo eleitoral, provavelmente estimulada pela bipolarização provocada pelo pleito presidencial, foi colocar em debate temas polêmicos. Para isso pediu que especialistas deixassem suas opiniões sobre dois temas aparentemente contraditórios. Além do artigo de José Pádua, cabe destacar as dissonâncias entre os adoradores de Chico Buarque e os de Caetano Veloso, no artigo regido pelo maestro Julio Medaglia, e também o debate em torno do Criacionismo e do Darwinismo que ficou contemplado no texto de Luiz Felipe Pondé, Professor da PUC-SP.

A realidade observada, na maioria das vezes, é mais parecida com um diamante do que com uma moeda. Isto faz com que a abordagem binária (cara ou coroa, X ou Y, branco ou preto, etc...) não seja a mais indicada para tratar de assuntos polêmicos. Entretanto, a análise realizada nos artigos supracitados foi capaz de confrontar e dialogar com as várias nuances do problema.


O artigo de José Augusto Pádua que apresento a seguir é diferente daquele que foi publicado na Folha. Imagino que por uma questão editorial, o artigo que apareceu na Folha possui menos palavras, o que fez com que o encadeamento de idéias fosse, em grande parte, acelerado. Por um lado, poderia justificar o caso dizendo que a diferença entre o da Folha e este está muito mais na forma do que talvez no conteúdo (imaginando que realmente existe esta diferença e as coisas não estão todas integradas). Por outro lado, posso imaginar o artigo publicado na Folha como um “Artigo Transgênico”, ao passo que o “original” (aquele que foi escrito pelo autor sem os cortes e que aqui reproduzo) é o “Artigo Orgânico”.


Sem mais delongas, vamos ao artigo do Prof. José Augusto Pádua gentilmente cedido para ser apresentado neste espaço.


TRANSGÊNICOS VERSUS ORGÂNICOS

José Augusto Pádua

“A ciência descobre, a tecnologia executa, o homem obedece”. As palavras escritas no portal da Feira Mundial de Chicago, em 1933, sintetizam a postura submissa que ainda caracteriza a relação de importantes setores da opinião publica contemporânea com as inovações tecnológicas. No vazio das antigas certezas religiosas, a ciência tornou-se para muitos a única fonte confiável de verdade. Uma esfera superior, de saber e pureza quase religiosos, onde os indivíduos comuns – os mesmos que se supõe serem cidadãos ativos e iguais no sistema democrático - não têm como penetrar. Uma fonte de inovações técnicas essencialmente benéficas e eticamente insuspeitas, com as quais devemos todos nos conformar (sob o risco de sermos chamados de obscurantistas, jurássicos ou coisa semelhante).

É irônico observar, porém, que o próprio movimento da modernidade global age no sentido de dissolver a aura de devoção construída em torno do complexo ciência & tecnologia. O número cada vez maior de pessoas escolarizadas, a velocidade e intensidade dos meios de comunicação, o estabelecimento de múltiplos espaços para o confronto de opiniões, vêm contribuindo para gerar sociedades que discutem cada vez mais o seu presente e futuro. Neste contexto histórico, no mundo da chamada “modernização reflexiva”, fica cada vez mais evidente a existência de enormes divergências entre cientistas de alta qualificação, inclusive no que se refere aos fatos aparentemente objetivos. É o que sociólogos norte-americanos, na década de 1980, chamaram de “Síndrome do Skylab”. Ou seja, a perda de confiança publica na ciência ocasionada por episódios como o de 1979, quando ficou visível para a comunidade global que os cientistas não conseguiam chegar a um acordo sobre onde cairiam os destroços daquela enorme estação espacial desativada.

O que está sendo discutido, na verdade, não são os limites da ciência, mas sim o alcance da democracia na alta modernidade. Neste sentido, a surpreendentemente forte reação de diversos atores sociais aos alimentos transgênicos, especialmente dos consumidores europeus, representa um caso paradigmático. O movimento de extensão qualitativa da democracia, com o aumento crescente do leque de setores da vida social que deve ser incluído no debate político, inclusive os temas da denominada “biopolítica”, se choca com a pretensão autoritária de setores empresariais no sentido de impor ao conjunto da sociedade decisões tecnológicas de alto risco ambiental. A pressão democrática para que a produção de organismos geneticamente modificados seja debatida de forma intensa e transparente, com uma moratória no seu uso, contribui para dar visibilidade aos condicionantes econômicos reais que controlam grande parte da atual pesquisa técnico-científica. E serve também para expor o uso da ideologia da pureza do progresso científico como instrumento para justificar decisões empresariais fundadas em objetivos bem menos etéreos, tais como o aumento dos lucros e o controle dos mercados.

Não se trata de coibir a pesquisa acadêmica. O esforço de politização das novas tecnologias, com exceção de algumas poucas vozes especialmente radicais, não passa pela defesa de uma censura da investigação teórica ou experimental. O problema está na difusão social precoce, por motivos calcados essencialmente na busca por poder econômico, de técnicas perigosas que ainda estão sob intenso debate científico. Ou seja, uma clara violação empresarial do chamado “princípio da precaução”, que estabelece, diante da incerteza, que não se devem adotar atividades ou técnicas cujas conseqüências, se negativas, possam ser irreversíveis ou além da nossa capacidade de controle.

Os organismos geneticamente modificados, na medida em que são seres vivos, podem mesclar-se com outros organismos e penetrar nas cadeias ecológicas planetárias, reproduzindo-se de forma descontrolada. Qualquer descoberta a posteriori de que causam problemas graves, como é tão comum na história da ciência, pode se dar em um contexto de dano irreversível ao que existe de mais precioso para a reprodução da vida humana na Terra: a diversidade de organismos e semenstes.

É tolice, portanto, associar os transgênicos à modernidade e os orgânicos ao arcaísmo. No setor da produção orgânica, por exemplo, que está crescendo como uma alternativa ao modelo transgênico, existe hoje um grande investimento científico. Não se trata de aceitar passivamente os movimentos da natureza, mas sim de buscar ativamente, através de um conhecimento ecológico fino e sofisticado, formas de potencializar a produtividade e capacidade de sustentação das lavouras. O mais correto, aliás, seria falar em agroecologia, já que a proposta, ao menos nas suas melhores versões, não se limita a evitar o uso de agrotóxicos, passando também pela adoção de um manejo ecologicamente inteligente das unidades produtivas como um todo (incluindo água, solos, florestas, cadeias alimentares etc).

Mas seria ingênuo supor que a polarização entre transgênicos e orgânicos está fundada em uma disputa apenas técnico-científica. Trata-se, mais que tudo, de uma questão de poder. A agroecologia, por suas características concretas, não facilita a concentração de poder, assim como não favorece o estabelecimento de monopólios, patentes e pacotes tecnológicos. A gestão ecológica da agricultura requer desenhos locais, que dialoguem com as condições específicas de cada domínio do território. Seus insumos, além disso, são renováveis e recicláveis. No núcleo da pressão pelos transgênicos encontra-se a fome de poder de um número restrito de enormes conglomerados empresariais que, no limite, buscam usar as novas tecnologias para dominar a oferta de sementes e reduzir a autonomia dos agricultores e, por extensão, das sociedades. É assustador imaginar um futuro em que algo tão vital como as sementes, assim como as fontes da alimentação em geral, estejam nas mãos de pouquíssimas corporações. O consumidor, ao optar pelo que comer e por qual modelo favorecer, pode estar fazendo política no mais alto grau.

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